Um dos critérios básicos de noticiabilidade no jornalismo é o do interesse público. É notícia o que é de interesse público. O problema maior é quando o jornalista confunde o interesse público com o simples interesse do público. Existem diversos fatos que chegam ao conhecimento dos jornalistas que podem ser interessantes ao público, sob o ponto de vista da curiosidade em torno de algo relacionado a uma pessoa pública. Porém, nem sempre o fato em si é de interesse público. Muitas vezes ele diz respeito a vida privada de um cidadão e em nada agrega à sociedade.
Caso exemplar dessa diferença aconteceu aqui mesmo no Rio Grande do Sul. No blog da rádio gaúcha, pertencente ao grupo RBS, na tarde de quinta-feira dia 10 de julho foi postado um texto com o seguinte título: Gravações registram até diálogos com amantes. O texto que se segue, contém transcrições de escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal durante as investigações da operação Rodin. A operação Rodin investigou uma fraude de mais de R$ 40 milhões do detran gaúcho.
Expor o conteúdo das gravações é algo de interesse da sociedade, desde que essas gravações ajudem a entender o caso e contribuam para descobrir os culpados e onde está o dinheiro desviado. Não é o caso da notícia da rádio gaúcha. No texto, está um diálogo entre um dos envolvidos, que não tem o nome citado, e duas de suas amantes. A transcrição, expõe somente a vida íntima do investigado e não contribui em nada à sociedade.
Pode ser engraçado, o público pode achar interessante, mas noticias como essa (se é que podemos chamar de notícia), não são de interesse público, apenas de interesse do público. O jornalista Luiz Antônio Magalhães no site do Observatório da Imprensa no texto “o drama de Casagrande e a imprensa marrom” de 01/04/2008 traz um importante paralelo entre o interesse público e o interesse do público. No texto, o autor cita o exemplo do caso entre Renan Calheiros e Mônica Veloso. Enquanto os dois eram amantes nenhum jornal noticiou o affair, por mais que isso fosse interessante para o público. O caso só virou notícia quando vieram a tona suspeitas de que Renan pagava as contas da amante e a pensão da filha com dinheiro de lobistas.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=479JDB004
Uma coisa tem que ficar clara. Desvio de verbas públicas é crime, e um crime contra todos nós contribuintes. Toda e qualquer gravação que seja importante no contexto de apurar os envolvidos e o destino do dinheiro deve ser divulgada. Porém, gravações da vida privada dos investigados não dizem respeito ao público. Podem ser interessantes e o público pode gostar de tais notícias, porém elas em nada agregam a sociedade e são uma agressão a ética profissional. Errou a rádio gaúcha por meio de seu blog, e o erro da rádio gaúcha logo foi repetido pela chamada blogsfera.