As grades de nossa liberdade

Não são os consensos que formam os grandes pensamentos. Só há busca por respostas quando as já existentes não convencem mais. O contraponto sempre leva em duas direções opostas. A primeira delas é trilhada por quem formulou o primeiro conceito. Na busca por agregar argumentos à posição inicialmente adotada, o confrontado amplia sua busca pelo conhecimento, indo além do pensamento por ele já formado. Em contrapartida quem questiona o faz com argumentos, baseados em uma ampla reflexão. Igualmente seu pensamento deve ir além, trazendo um olhar diferenciado sobre o fenômeno em estudo.

Trazer um assunto para a reflexão é por si só um ganho. Na busca por entender os fenômenos da sociedade de hoje, apresentar contrapontos significa, discutir as nuances do pensamento de determinado autor. Os benefícios desse exercício são inúmeros, especialmente quando realizados por autores de reconhecida capacidade intelectual.  Todos os autores de alguma forma discutem as relações do indivíduo na sociedade. Para alguns, essas relações se dão no ciberespaço, para outros, no espaço “convencional”. De qualquer forma, a discussão gira em torno das ferramentas de interação e conduta do indivíduo na sociedade.

Mesmo que muitas vezes esse estudo não seja feito através do contraponto, as novas idéias ou os “passos seguintes” em determinado estudo sempre se dão através de um desejo de ir além, de buscar respostas mais completas. Para exemplificar essa forma de avaliar os estudos do cotidiano, basta ver os caminhos percorridos por Gilles Deleuze e Michel Foucault. Apesar de semelhantes, eles se completam. Muitas das analises feitas por Foucault são corroboradas por Deleuze. Mesmo assim, em nenhuma de suas reflexões Deleuze deixa de questionar ou ir além, de contribuir substancialmente

Deleuze e Focault e a sociedade do confinamento

As discussões a cerca das formas de confinamento impostas pela sociedade são muitas. Para a maioria dos indivíduos, confinamento remete diretamente a prisão, punição por um desvio na conduta considerada civilizada. Mesmo para esses, a noção de prisão é muito mais ampla. Mesmo sem se dar conta, o sujeito sente-se prisioneiro na família, no casamento. Sente-se prisioneiro da vida capilitsta: Comprar – parcelar – trabalhar – pagar.  Todos os conflitos existentes entre os indivíduos advém da necessidade de romper com essas prisões. A prisão do dinheiro, do casamento, das relações profissionais.

O mais interessante dessa busca por romper com esses vínculos é que quando o indivíduo consegue se livrar de alguns deles, ele imediatamente procura outra forma de prisão. A história do pai de família que abandona o lar é sintomática: O sujeito enfadado da rotina familiar decide ir embora. Larga tudo e se muda para o país vizinho, inclusive com outro nome. Após muita procura, a família descobre seu paradeiro. O homem havia constituído uma nova família, e vivia exatamente da mesma forma que antes. Os mesmos controles, as mesmas prisões, a mesma rotina. Condicionado por uma vida de padrões estabelecidos, o indivíduo se sente seguro  atrás das grades. A rotina, considerada por muitos motivos de infelicidade, é uma busca constante.

Ainda assim muitos lutam contra suas prisões. Deleuze explica que a família é um “interior “, em crise como qualquer outro interior, escolar, profissional, etc. Para ele, a constante busca de fuga dessa sociedade de controle gera essa crise. Mesmo assim Deleuze não tem nenhuma ilusão quanto ao futuro. Ele explica que as formas de controle serão, simplesmente, substituídas.

Foucault analisa com muita propriedade as prisões do século XVII e XVIII. Nessa época aconteceu algo exemplar. A sociedade vivia a prisão do feudalismo, do domínio da igreja. Quando irrompeu contra esse domínio e se viu liberta, a sociedade não sabia o que fazer com a liberdade. A solução mais simples foi conseguir grades novas. O dinheiro passou a ser o novo delimitador das relações sociais. A busca desenfreada por riqueza se transformou em uma requintada prisão: A prisão com “cara” de liberdade.

Nada mais humano do que enganar-se. O homem tem o hábito de mentir para si mesmo. Com as prisões, não é diferente. Tudo que aparente liberdade, mas o mantenha prisioneiro, é válido. A segurança gerada pelas grades é indelével da memória humana. Algo que vem desde a placenta e se estende por toda vida. Todas essas prisões são controladas. A antiga sociedade da disciplina, da chibata nos escravos, foi substituída por uma “sociedade do controle”, nas palavras de Deleuze, muito mais sutil por sinal.

Autores que se complementam

Se Deleuze entendesse as palavras de Foucault como verdade absoluta e imutável essa noção de sociedade do controle nunca se solidificaria. Ela ficaria parada no tempo e no espaço. Com as novas tecnologias, Deleuze ampliou os espaços de dominação, e trouxe o pensamento de Foucault para o tempo atual. Isso só aconteceu pelo sentimento de que nenhuma análise ou reposta é definitiva. Assim como as prisões, o pensamento muda sua face rapidamente. Na realidade, pensando bem, talvez o pensamento seja a maior de nossas prisões. De tanto pensar, construímos as grades da nossa liberdade. Ou não?

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