Antropologia cotidiana

O trêm São Leopoldo-Porto Alegre passa por Sapucaia. Eu olho pela janela, e penso, por aqui é o zoológico. O trêm começa a lotar. Na mesma hora me vem a cabeça, vou perder o meu lugar. Porque? Ora, porque algo em mim ainda me deixa constrangido em ver uma pessoa acima dos 50 de pé, enquanto eu, aos 21, fico sentadão oras!

Beleza, o trem encheu, mas não lotou. Nenhum idoso de pé, por enquanto. Canoas é terrível, sempre entra uma porrada de gente. Enquanto eu ainda tenho o meu lugar, posso me dar ao prazer de… pensar. Começo a pensar no Zôo, os mais diferentes animais nativos dos mais diferentes lugares do mundo, todos ali, desfilando suas diferenças.

Mas alguma coisa me chama a atenção. Diferenças, no zoológico? Não, as diferenças estão no balançar do trêm. Um espaço quase de observação antropológica, chamam isso de sociedade. Ninguém me ensinou isso, então como eu sei? Sei lá. A verdade é que as diferenças maiores não estão nos animais. estão em nós, nas diferenças aparentes, e principalmente, nas que não vemos. Lá
estão balançando negros, brancos, amarelos…Os feios, os bonitos, e os esquisitos (opa, me encaixo aí).

Tem a mocinha bonita. Deve ser secretária, estagiária ou alguma coisa assim em Porto Alegre. Salto alto, terninho e uma expressão de uma certa arrogância no olhar. O Nariz altivo, o rosto sério. Tem um cara olhando pra ela. Parece um desses estudantes de publicidade ou design da faculdade. Roupinhas esquisitas (para os meu padrões) tenis all star, uma calça que deve ter custado meu salário. Camiseta listrada com uma coisa escrita em inglês, o que é mesmo? Merda tenho
que fazer umas aulas de inglês, urgente.

Ela parece afim, mas, sabe como são essa guriazinhas bonitinhas. Ela baixa a cabeça e faz cara de “não estou interessada”, mas dá pra ver que ela olha por baixo. Observar as aproximação de machos e femeas no trêm é mais interessante do que ver isso no zoológico. Mas há uma coisa absolutamente comum entre as duas realidades: Ela faz que não quer, mais quer. Ele, burro,  não entendeu o jogo.

As estações vão passando, ela olha, baixa a cabeça. Olha pela janela, volta os olhos pra ele e…vira a cara. Ele agora a encara, olha fixo, hum… começou a jogar pesado. Mais uma estação, duas, não vai dar tempo, comecei a torcer pelo cara.

Primeira estação de Porto Alegre, ela levanta, ele também, vai chegar? As portas se abrem e ela se vai, ele atrás. O final dessa história? Não sei, será que ele desceu atrás dela, ou era estação de descida dele também? Nunca saberei, vou cuidar da minha vida.

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