16 anos, 12 mortes e muitas manchetes

Abril 28, 2008

 Um adolescente de 16 anos confessa ser o autor de 12 assassinatos. Sem dúvida, esse é um fato que não acontece todos os dias. Com certeza é também um fato de relevância, em tempo em que se discute a redução da maioridade penal. Isso aconteceu na cidade de Novo Hamburgo, região metropolitana de Porto Alegre. Novo Hamburgo raramente é pauta de jornais da capital. Muito menos ainda aparece na mídia nacional. Porém, após a detenção do adolescente, a imprensa de todo o Brasil correu como louca para a cidade.A história virou manchete nos meio de comunicação do estado. O jornal Diário Gaúcho, tradicional pelo seu sensacionalismo, deu a seguinte manchete: “Guri com alma de diabo”. O Fantástico do último domingo (30/03) fez matéria e veículos internacionais têm procurado a mídia local para mais informações.

A edição online de Zero Hora traz a noticia: “Adolescente suspeito de ter matado 12 pessoas ‘acha que ficou famoso’, diz promotor”. Na matéria o promotor parece discordar da visão do jovem. Porém, foi exatamente isso que aconteceu. O garoto é visto como uma criança sem noção de seus atos, uma vítima do sistema corrompido que o fez abandonar a escola na quarta série do ensino fundamental.

Notícia e espetáculo

Mas a discussão aqui proposta não está na responsabilidade do garoto, seus familiares ou do poder público. Está na espetacularização de um fato. No agendamento dos meios de comunicação de todo o Brasil. Não são poucos os veículos que trazem psicólogos e especialistas para falar sobre o assunto. O garoto, e com toda a razão, se considera uma celebridade.

Depois de tantas entrevistas, ele não pensa nas pessoas que matou. Tampouco se preocupa com os míseros três anos que ficará recluso. Ele está ciente de sua situação e do poder que adquiriu sobre os meios de comunicação. Fala o que quer, quando quer. Nas entrevistas, coloca-se como um justiceiro que matava, não apenas por vingança, mas por justiça, contra aqueles que fizeram mal a ele ou algum de seus parentes.

Sua única preocupação – e ele expressou isso para o delegado que investiga o caso – é de que os jornais não publiquem nada de errado. É tênue a linha que separa a notícia do espetáculo. É tênue, mas existe. É necessário, por parte dos meios de comunicação, todo o cuidado para não transformar um assassino em uma celebridade. Do jeito que as coisas andam, o jovem assassino terá que contratar um bom assessor de imprensa, e não um advogado.

Artigo publicado no Observatório da Imprensa: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=480FDS003#


Entre a noticia e a emoção uma análise midiática

Abril 28, 2008

Uma menina de 5 anos de classe média alta morre ao cair do 6° andar do prédio onde passava o fim de semana com o pai. A constatação de assassinato é imediata. Os principais suspeitos da morte são o pai e a madastra. Esta narrativa podia ser uma história de ficção, mas não é. Trata-se de um caso real, a morte de Isabella Nardoni.

 Após noticiar o fato, a mídia tornou-se um agente ativo em tudo que envolve o caso. Sem perceber, as pessoas elegeram a imprensa seu porta-voz, um mediador entre os investigadores, os familiares, e a população. Apesar da cautela inicial, aos poucos os personagens da trama foram tendo definidos seus papeis.

 O que mais chama a atenção sobre a cobertura da mídia é o tamanho do espaço dedicado ao assunto. Analisando os principais telejornais do país pode-se notar as proporções que a história tomou. Para se ter uma idéia do espaço destinado ao caso basta analisar o Fantástico do dia 06/03. Ao todo a morte de Isabella ocupou aproximadamente 18 minutos do programa. A epidemia de dengue por exemplo não ocupou nem 1/3 desse espaço.

 Os critérios adotados para escolha do que será noticiado também mudaram ao longo do caso. Se no inicio apenas os fatos mais relevantes era noticiados, aos poucos essa situação foi mudando. Consciente da repercussão do caso e da comoção nacional que a história gerou, os principais veículos de informação optaram pela emoção em detrimento da razão. Há muito que os fatos noticiados não são escolhidos pela sua relevância social, ou pelo que contribuem como informação, o que é noticia é escolhido pelo conteúdo emocional envolvido.

 Apesar da cautela por parte da mídia em não apontar diretamente culpados, a exposição e todos os elementos quase teatrais que envolvem o caso fizeram com que os culpados tenham sido escolhidos. O cidadão de um modo geral criou uma necessidade afoita de escolher os seus culpados e fazer justiça. Com paus e pedras Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá eram aguardados na saída das delegacias onde estiveram presos. Esse é o veredicto final, culpados ou não, para a opinião pública não há mais julgamentos a serem feitos, a sentença está dada.